Chuva causa mortes, deslizamento de barreiras e alagamentos no Grande Recife

Mortes foram registradas no Recife, em Olinda e em Abreu e Lima pelo Corpo de Bombeiros. Previsão é de que a chuva persista nesta quarta (24).

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Reprodução/TV Globo

As chuvas que atingem a Região Metropolitana do Recife (RMR) desde a madrugada desta quarta-feira (24) levaram à morte de 11 pessoas, segundo o Corpo de Bombeiros. O temporal também derrubou barreiras e árvores e causa diversos pontos de alagamento, que dificultam a circulação dos ônibus. Em algumas cidades da RMR, aulas da rede municipal foram canceladas.

(Atualização: às 14h04 desta quarta (24), havia uma divergência entre a assessoria de comunicação do Corpo de Bombeiros e as equipes que estão em Abreu e Lima. Enquanto a assessoria confirmava a morte de uma gestante de 21 anos, os bombeiros do local informaram que as equipes utilizavam cães farejadores para localizar a jovem. A Defesa Civil de Olinda e os Bombeiros também contabilizaram uma única vítima em dois endereços diferentes.)

Quatro mortes registradas pelos Bombeiros ocorreram em Olinda, sendo duas no bairro de Águas Compridas e duas no Passarinho. Outras quatro mortes ocorreram em um deslizamento em Caetés, em Abreu e Lima. Três pessoas morreram no Recife, nos bairros de Dois Unidos e Passarinho.

Veja quem morreu devido às chuvas no Grande Recife

  • Natalicio Vicente da Silva, 69 anos, no Passarinho, no Recife
  • Ivonete Maria da Silva, 63 anos, no Passarinho, no Recife
  • Josafá Barbosa da Costa, 34 anos, em Dois Unidos, no Recife
  • Mariana Xavier, 18 anos, em Caetés, em Abreu e Lima
  • Luiz Henrique, 15 anos, em Caetés, em Abreu e Lima
  • Adalmir Ferreira dos Santos, 53 anos, em Caetés, em Abreu e Lima
  • Silvano Silva, 49 anos, em Caetés, em Abreu e Lima
  • Iraci Maria da Conceição, 78 anos, em Águas Compridas, em Olinda
  • Abraão Batista da Silva, 25 anos, em Águas Compridas, em Olinda
  • Diego, de idade não informada, no Passarinho, em Olinda
  • Elisângela, de idade não informada, no Passarinho, em Olinda

Outros deslizamentos

Em Dois Unidos, no Recife, cinco vítimas foram soterradas após um deslizamento de barreira. Segundo o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), as vítimas foram retiradas do local com escoriações.

No Córrego do Joaquim, em Nova Descoberta, no Recife, uma barreira deslizou e duas casas foram atingidas. Ao todo oito pessoas estavam nas duas residências atingidas. Sete ficaram feridas e foram socorridas para UPA de Nova Descoberta. Em seguida, foram encaminhadas ao Hospital da Restauração.

Deslizamento de barreira na Estrada do Passarinho, no Recife, deixou dois idosos mortos nesta quarta-feira (24) — Foto: Wanessa Andrade/TV Globo

Em Jaboatão dos Guararapes, sete barreiras deslizaram. Segundo a prefeitura, ninguém ficou ferido, mas as famílias precisaram deixar suas casas. A Defesa Civil pode ser acionada, no município, pelos telefones 0800 281 20 99 ou (81) 9 9195 6655.

Acionado para socorrer feridos, o Samu também registrou deslizamentos de barreiras em Olinda, no Córrego do Abacaxi, Estrada do Passarinho e no Alto Nova Olinda; na Rua do Bosque, em Paulista, e em Caetés, em Abreu e Lima.

Deslizamento foi registrado no Córrego do Abacaxi, em Olinda, nesta quarta-feira (24) — Foto: Wellington Pereira/TV Globo

No Recife, a Defesa Civil do município informou às 11h desta quarta (24) que o acumulado de chuvas de mais de 241 mm nos últimos cinco dias equivale a 20 dias da média histórica do período, o que corresponde a 357 mm, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Na capital, a prefeitura contabilizou, até as 16h40, 56 famílias desabrigadas. Nenhuma foi para abrigos. Em Olinda, foram contabilizadas 110 pessoas desabrigadas até pouco antes das 17h desta quarta (24). Desse total, 70 estão na escola municipal Pró-menor e 40 pessoas no estádio Grito da República, ambos abrigos no bairro de Rio Doce.

De acordo com a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), as chuvas no Grande Recife e Zona da Mata devem diminuir de intensidade, mas persistem durante todo o dia. Na terça (23), a Agência havia renovado o alerta para chuvas moderadas a fortes nas duas regiões.

Barco e trator para locomoção

Enfermeiro "aluga" trator por R$ 10 para conseguir passar por trecho alagado na BR-101, na Zona Norte do Recife — Foto: Clarissa Góes/TV Globo

Devido aos alagamentos na BR-101, no bairro da Guabiraba, na Zona Norte do Recife, o enfermeiro André Cavalcanti pagou R$ 10 para atravessar a rodovia e conseguir chegar a Igarassu, também na Região Metropolitana.

Em Olinda, os moradores do Residencial Jardim Olinda, no bairro de Casa Caiada, contam que foram acordados por volta de 1h30 e orientados a retirar os carros da garagem para a água poder escoar. No mesmo bairro, moradores usaram um barco para se locomover.

Animais nas ruas

Porcos foram levados pela correnteza do Rio Beberibe, num trecho da Zona Norte do Recife, e um jacaré foi encontrado por moradores do Prado, na Zona Oeste da capital pernambucana. Através de um vídeo enviado ao WhatsApp da TV Globo, é possível ver que os porcos estão sobre uma pilha de lixo que boia no rio. Já o jacaré foi encontrado na Rua Manoel de Arruda Câmara.

Alagamentos

Às 5h30, a Rua Manoel Bandeira, onde fica o Residencial Jardim Olinda, ficou completamente alagada. A água cobriu parte dos veículos. Quem mora nos apartamentos mais baixos do Residencial precisou contar com ajuda para subir os móveis.

Ainda em Olinda, na Cidade Tabajara, cerca de 20 ônibus faziam uma fila sem conseguir transitar. Caminhões, caminhonetes e carros comuns também estão parados nos acostamentos para não arriscar a travessia.

Imagens enviadas para o WhatsApp da TV Globo mostram a Rua Olegário Mariano, na mesma cidade, completamente alagada. O nível da água chega até metade dos veículos. Segundo moradores da Rua Caetano Ribeiro, em Casa Caiada, a água no nível da cintura deixa as pessoas ilhadas em suas casas.

No Recife, a Rua Carneiro Vilela, no bairro da Encruzilhada, a Rua Teles Júnior, nos Aflitos, e a Rua Estrela, no Parnamirim, todas na Zona Norte do Recife, são algumas das vias alagadas.

O analista de tecnologia da informação Gilberto Santos Júnior, de 39 anos, que mora há 15 anos no mesmo lugar, conta que se deparou com a Rua Nossa Senhora da Pompéia, no bairro da Encruzilhada, na Zona Norte do Recife, alagada desde as 6h.

Segundo ele, o caos no bairro não é novidade. “Sempre alaga tanto aqui na rua quanto nas redondezas. Tem um giradouro por trás do Mercado da Encruzilhada que traz muita água e lixo para esse lado”, afirma.

Avenida Doutor José Rufino, em Areias, na Zona Oeste do Recife, está alagada nesta quarta-feira (24) — Foto: Reprodução/WhatsApp

Foram registrados, também, pontos de alagamento nas avenidas Mascarenhas de Moraes, na Imbiribeira, na Zona Sul; Dois Rios, no Ibura, também na Zona Sul; e na Doutor José Rufino, em Areias, na Zona Oeste. Nesses pontos não houve retenção, mas os veículos passavam com dificuldades, de acordo com a Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU).

“Eu consegui passar porque estava dentro de um ônibus, que é alto, mas essa parte da Doutor José Rufino Sempre alaga e não é de hoje. Já fizeram uma intervenção de limpeza, mas não mudou nada”, conta o professor Carlos Landim.

A CTTU não divulgou um balanço de semáforos que pararam de funcionar por conta das chuvas, mas solicita à população que avise qualquer ocorrência desse tipo pelo número 0800.081.1078. A ligação é gratuita.

Segundo moradora da Rua Britânia, água da chuva quase invadiu residências em Paulista — Foto: Reprodução/WhatsApp

No município de Paulista, de acordo com moradores, o nível da água na Rua Frei Caneca, no bairro do Janga, chegou até o joelho. Os moradores não conseguiam sair de casa.

A Rua Britânia, em Nossa Senhora do Ó, em Paulista, também ficou alagada. De acordo com Marcela Portela, de 26 anos, que mora há 19 no local, faltou pouco para a água invadir as residências. “Hoje não temos condições de sair daqui. Sexta-feira tenho um congresso e a situação precisa melhorar. Durante todo o tempo aqui, nunca vi ações da prefeitura para melhorar a rua”, afirma.

Problemas de mobilidade

No Terminal Integrado Pelópidas Silveira, em Paulista, passageiros que aguardavam transporte afirmaram que não havia circulação de veículos na manhã desta quarta (24). Segundo passageiros que estavam no local, a orientação dada pelo TI é que os passageiros voltassem para casa.

Segundo o Grande Recife Consórcio de Transporte, a operação dos terminais Pelópidas Silveira e Igarassu foi comprometida. Equipes monitoraram as ruas devido aos alagamentos nesses dois locais e em frente ao TI CDU, na Zona Oeste do Recife.

De acordo com o estudante Juan Gouveia, que saiu de Paulista, a falta de previsão de novas operações complicou a chegada no trabalho, que fica no centro do Recife. “Já não tinha ônibus da linha alimentadora do meu bairro e eu tive que ir andando para o terminal”, diz.

Já na BR-101, no bairro da Guabiraba, na Zona Norte do Recife, as dificuldades de mobilidade eram as mesmas para quem estava à espera de transporte público. Funcionária de um posto de saúde em Casa Forte, Lídia Moraes saiu de casa às 6h30, mas não conseguiu transporte. “Fiquei sabendo que está tudo alagado, por isso os ônibus não passam. Não sei como vou fazer”, conta.

A empregada doméstica Neide Maria Reis tentava pegar um ônibus para sair da Guabiraba e chegar no bairro da Estância, na Zona Oeste do Recife. “Era para eu estar no trabalho às 7h40, mas não sei como vai ser. E a maré nem encheu… Mais tarde vai ficar ainda mais complicado”, afirma.

O quilômetro 61 da rodovia BR-101 ficou alagado e teve o trânsito interrompido até as 15h30, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). A orientação era de que os motoristas usassem a PE-15 como rota alternativa.

Aulas

Em Olinda, Paulista, Abreu e Lima, Igarassu e Araçoiaba, as redes municipais de ensino suspenderam as aulas nesta quarta (24), em todos os turnos. Na rede estadual, o expediente foi suspenso em Olinda e em Paulista. Nos outros municípios, as diretorias das escolas estaduais devem avaliar se os locais estão seguros para receber os estudantes.

Família se preocupa com caminho até a Escola Mundo Esperança, no Sítio dos Pintos, na Zona Norte do Recife,  — Foto: Mhatteus Sampaio/TV Globo

O caminho até a Escola Mundo Esperança, no Sítio dos Pintos, na Zona Norte do Recife, ficou complicado para Maria Rita Nascimento, que tentava levar a neta Ruama, de oito anos.

“Eu já falei com a diretora para avisar que minha neta está atrasada. A situação é ainda mais preocupante porque eu fiquei sabendo que nem merenda vai ter para os alunos que conseguiram chegar”, diz Maria Rita.

Atendimentos suspensos e reduzidos

Os expedientes administrativo e judicial do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) no Grande Recife foram suspensos nesta quarta (24). O plantão judiciário das comarcas foi mantido, das 13h às 17h, e exercido pelos diretores dos Foros em casos urgências.

Em Paulista, unidades de saúde da rede municipal funcionaram com equipe reduzida. Algumas delas chegaram a suspender o atendimento ao público, como a Unidade de Saúde da Família (USF) Quirino Figueiredo, em Pau Amarelo; a USF Chã da Mangabeira, na Cidade Tabajara; e a Policlínica da Mulher, no Centro.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) suspendeu o expediente no Recife ao longo da quarta (24), devido às chuvas. Outras informações sobre o funcionamento do MPT podem ser obtidas no número (81) 2101-3200.

Barreiros

No domingo (21), mais de 500 famílias do município de Barreiros, na Zona da Mata Sul, precisaram deixar as suas casas por causa de alagamentos. O nível dos rios Una e Carimã subiu, invadindo ruas e imóveis. Não houve registro de mortes ou feridos. Na terça-feira (23), a maioria dos desalojados havia voltado para casa.

Mortes em junho

Em junho, nove pessoas morreram por causa das chuvas no Grande Recife. Em Camaragibe, foram sete vítimas de um deslizamento de barreira. Bombeiros passaram mais de 50 horas procurando os corpos. Em Jaboatão dos Guararapes, uma adolescente morreu soterrada. No Recife, uma mulher morreu afogada após o carro em que ela estava entrar num túnel alagado.

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