Por que o mundo está ficando cada vez mais alérgico a alimentos

Acredita-se que o aumento das reações alérgicas a alimentos esteja relacionado a fatores ambientais e ao estilo de vida ocidental.

0
343
Unsplash

Em todo o mundo, as crianças estão mais propensas do que nunca a desenvolver alergias alimentares.

As investigações recentes sobre a morte de dois adolescentes britânicos ao comer gergelim e amendoim chamaram atenção para as consequências muitas vezes trágicas. Em agosto, uma menina de seis anos no oeste da Austrália morreu em decorrência de uma alergia a laticínios.

O aumento das alergias registrado nas últimas décadas é visível principalmente no Ocidente. A alergia alimentar afeta hoje cerca de 7% das crianças no Reino Unido e 9% na Austrália, por exemplo. Em toda a Europa, 2% dos adultos têm alergias alimentares.

As reações possivelmente fatais podem ser induzidas até mesmo por vestígios de alimentos que ativam a alergia, o que significa que pacientes e familiares vivem ansiosos e com medo. As restrições alimentares que eles seguem podem se tornar um fardo para a vida social e familiar.

Embora não possamos dizer com certeza por que as taxas de alergia estão aumentando, pesquisadores de todo o mundo estão se esforçando para encontrar formas de combater esse fenômeno.

O que causa alergia?

A alergia é causada pelo sistema imunológico que reage para combater substâncias presentes no meio ambiente que deveriam ser consideradas inofensivas, conhecidas como alérgenos.

Essas substâncias a princípio inocentes se tornam alvos, levando a reações alérgicas.

Os sintomas variam desde vermelhidão da pele, urticária e inchaço até – nos casos mais graves – vômitos, diarreia, dificuldade respiratória e choque anafilático.

Entre os alimentos a que crianças costumam ser alérgicas, estão leite, ovos, amendoim, tipos de nozes (por exemplo, nozes, amêndoas, pinhões, castanha do Pará), gergelim e frutos do mar.

Onde as alergias alimentares são mais prováveis ​​de ocorrer?

A frequência das alergias alimentares aumentou nos últimos 30 anos, principalmente nas sociedades industrializadas. O tamanho do aumento depende do tipo de alimentação e de onde o paciente vive.

Por exemplo, houve um crescimento de cinco vezes nas alergias a amendoim no Reino Unido entre 1995 e 2016.

A Austrália tem a maior taxa de alergia alimentar confirmada. Um levantamento descobriu que 9% das crianças australianas de um ano tinham alergia a ovo, enquanto 3% eram alérgicas a amendoim.

O aumento das alergias não se deve simplesmente ao fato de a sociedade estar mais consciente delas e de conseguir diagnosticá-las melhor.

Acredita-se que o aumento da sensibilidade aos alimentos esteja relacionado a fatores ambientais e ao estilo de vida ocidental.

Sabemos que há taxas mais baixas de alergias nos países em desenvolvimento. E que também são mais propensas de ocorrer em áreas urbanas do que rurais.

Os fatores envolvidos podem incluir poluição, mudanças na dieta e menos exposição a micróbios, que mudam a maneira como nossos sistemas imunológicos reagem.

Os migrantes parecem apresentar uma incidência maior de asma e alergia alimentar no país em que escolheram viver em relação a seu país de origem, ilustrando ainda mais a importância dos fatores ambientais.

Algumas explicações possíveis

Não há uma única explicação para um aumento global das alergias a alimentos, mas a ciência tem algumas teorias.

As infecções parasitárias, em particular, são normalmente combatidas pelos mesmos mecanismos envolvidos no combate às alergias. Com menos parasitas para combater, o sistema imunológico se volta contra elementos que deveriam ser inofensivos.

Outra hipótese é que a vitamina D pode ajudar nosso sistema imunológico a desenvolver uma resposta saudável, nos deixando menos suscetíveis a alergias. Mas a maioria das populações ao redor do mundo não obtém vitamina D suficiente por várias razões, incluindo passar menos tempo ao sol. Nos EUA, acredita-se que a taxa de deficiência de vitamina D tenha quase dobrado em pouco mais de uma década.

Uma nova teoria de “exposição a alérgenos duplos” sugere que o desenvolvimento da alergia alimentar se deve ao equilíbrio entre o momento, a dose e a forma de exposição.

Por exemplo, o desenvolvimento de anticorpos antialérgicos pode ocorrer por meio da pele, principalmente da pele inflamada de bebês com eczema.

Mas acredita-se que a ingestão de alimentos que podem desencadear alergia durante o desmame pode levar a uma resposta saudável e prevenir o desenvolvimento da alergia, porque o sistema imunológico do intestino está preparado para tolerar bactérias e substâncias estranhas, como alimentos.

Esta foi a base para o Estudo LEAP do King’s College London, que revelou uma redução de 80% nas alergias a amendoim em crianças de cinco anos que comiam regularmente o alimento desde o ano em que nasceram.

Esse estudo levou a mudanças nas diretrizes dos EUA sobre o consumo de amendoim na infância. Os pais do Reino Unido foram aconselhados a consultar um médico primeiro.

Impacto humano

As recentes mortes de adolescentes que sofriam de alergias alimentares no Reino Unido destacam o impacto humano desta condição e a importância do alerta claro e preciso nas embalagens.

Mas até mesmo o diagnóstico inicial é um desafio. A principal maneira de identificar alergias alimentares é fazer com que o paciente consuma gradualmente quantidades maiores do alimento em questão sob supervisão médica.

No entanto, isso é angustiante para as crianças e tem riscos. Os testes de acompanhamento da reação do sistema imunológico também podem dar um falso positivo em crianças não alérgicas.

No King’s College London, desenvolvemos uma alternativa: um exame de sangue que se mostrou preciso no diagnóstico de alergia a amendoim, comparado aos métodos existentes.

Esses testes agora contemplam os alimentos responsáveis ​​por 90% das alergias infantis, e espera-se que estejam disponíveis aos pacientes nos próximos dois anos.

Mesmo após um diagnóstico bem sucedido, é difícil evitar alimentos que ativam a alergia, e reações acidentais são comuns.

A imunoterapia com alérgenos – administração de pequenas quantidades da substância – mostrou reduzir a sensibilidade dos pacientes alérgicos e pode proteger contra a exposição acidental.

Um teste recente com drogas de imunoterapia mostrou que 67% dos indivíduos alérgicos a amendoim poderiam consumir o equivalente a dois grãos após um ano, em comparação com 4% do grupo de controle. No entanto, eles ainda são alérgicos.

Enquanto isso, as alergias continuarão sendo uma fonte de preocupação e parte da vida diária das crianças e de seus pais.

Sobre este artigo

  • Esta análise foi encomendada pela BBC a um especialista que trabalha para uma organização externa.
  • Alexandra Santos é professora do Departamento de Alergia Pediátrica do King’s College London.
  • Editado por Eleanor Lawrie.
Comentários